Passagens de fauna em Botucatu

Mobilização histórica!


Passagens de fauna em Botucatu estiveram no centro do debate ambiental do município em 2026. No dia 15 de junho, a Câmara Municipal de Botucatu votou o Projeto de Lei nº 130/2025, uma proposta que buscava fortalecer a proteção da biodiversidade por meio da exigência de Relatórios de Impacto à Biodiversidade para empreendimentos localizados em áreas ambientalmente sensíveis.

Embora o projeto não tenha sido aprovado, sua tramitação ampliou o debate sobre a implantação de passagens de fauna em Botucatu, mobilizou diferentes setores da sociedade e deixou contribuições importantes para a construção de políticas públicas capazes de conciliar desenvolvimento econômico, segurança viária e conservação da biodiversidade.

O projeto recebeu votos favoráveis dos vereadores Mario Ielo, Erika da Liga do Bem, Carlos Trigo e Abelardo da Costa Neto.

Por que as passagens de fauna em Botucatu são tão importantes?

As passagens de fauna são estruturas planejadas para permitir que os animais atravessem estradas e áreas urbanizadas com segurança.

Elas ajudam a reduzir as colisões veiculares, mantêm a conexão entre áreas naturais e permitem que espécies continuem se deslocando para buscar alimento, encontrar parceiros reprodutivos e acessar diferentes ambientes.

Além dos benefícios para os animais, essas estruturas também aumentam a segurança das pessoas, reduzindo o risco de acidentes envolvendo fauna silvestre nas estradas.

Quando um motorista colide com um animal de grande porte, como um tamanduá-bandeira ou um lobo-guará, o acidente pode causar ferimentos graves e até ser fatal tanto para os ocupantes do veículo quanto para o animal.

Em uma região como a Cuesta Paulista, reconhecida pela riqueza de espécies e pela presença de importantes remanescentes de Cerrado e Mata Atlântica, a implantação de passagens de fauna em Botucatu é fundamental para manter o equilíbrio dos ecossistemas. A relevância do tema também aparece nos dados do Cempas – Centro de Medicina e Pesquisa em Animais Selvagens da Unesp Botucatu, que atendeu cerca de 250 animais vítimas de atropelamento na região nos últimos três anos.

O que propunha o Projeto de Lei nº 130/2025 para as passagens de fauna em Botucatu?

O Projeto de Lei nº 130/2025 buscava incorporar a biodiversidade ao planejamento do desenvolvimento urbano. A proposta previa que empreendimentos localizados em áreas ambientalmente sensíveis, já definidas pelo Plano Diretor, apresentassem estudos específicos sobre seus impactos na fauna e na flora.

Esses estudos poderiam indicar medidas como passagens de fauna em Botucatu, corredores ecológicos, redutores de velocidade e outras ações voltadas à proteção da vida silvestre.

A proposta foi construída coletivamente por representantes da Comissão de Proteção Animal da OAB Botucatu, Instituto de Defesa da Fauna (IDF), Projeto Felinos da Cuesta (LCN/FCA Unesp Botucatu), CATI – Extensão Rural de Botucatu, Cuesta Viva e pelo vereador Mario Ielo, autor do projeto. O texto também recebeu contribuições da sociedade civil em audiência pública e parecer favorável, por unanimidade, do Conselho Municipal de Meio Ambiente (COMDEMA) e do Conselho Municipal de Desenvolvimento Rural (CMDR).

Mais do que uma proposta legislativa, o projeto evidenciou a capacidade de articulação entre comunidade, pesquisadores, organizações da sociedade civil e poder público em torno da construção de soluções para proteção da fauna silvestre.

A crise dos tamanduás-bandeira revelou um problema que já existia

A discussão sobre passagens de fauna em Botucatu ganhou força em 2021, após uma sequência de atropelamentos de tamanduás-bandeira na Rodovia Gastão Dal Farra, importante ligação entre a cidade, os bairros Green Valley, Demétria, Roseira, Laguna e o Complexo Turístico Véu da Noiva.

Em menos de quinze dias, dois tamanduás-bandeira morreram atropelados no mesmo trecho. Um deles foi encontrado ainda vivo por moradores e levado ao CEMPAS, da Unesp, mas não resistiu aos ferimentos.

Naquele período, as obras da Represa do Rio Pardo alteravam a dinâmica da paisagem local, aumentando o deslocamento de animais em busca de alimento e abrigo.

Meses depois, um quarto tamanduá-bandeira foi encontrado morto na mesma rodovia. A situação gerou grande mobilização popular. Moradores e ativistas ambientais levaram o corpo do animal para a frente da Prefeitura de Botucatu em um protesto que marcou a história recente do município e chamou atenção para um problema que já vinha colocando em risco a fauna silvestre da região.

Os primeiros resultados da união entre comunidade, pesquisadores, organizações ambientais e poder público

Após a mobilização de 2021, diferentes instituições passaram a atuar conjuntamente em busca de soluções permanentes para a proteção da biodiversidade.

O Instituto de Defesa da Fauna (IDF), a ONG Nascentes, pesquisadores da Unesp e profissionais especializados em fauna silvestre iniciaram estudos técnicos para identificar áreas prioritárias para a implantação de medidas de proteção.

Em abril de 2023, uma visita técnica realizada na Avenida Odilon Cassetari identificou a ausência de estruturas adequadas para a travessia segura dos animais em uma região estratégica para a biodiversidade local.

A área está inserida na APA Cuesta Guarani e também integra a ZEPAM das Águas, uma zona de especial importância para a conservação ambiental e para a proteção dos recursos hídricos.

Durante os levantamentos foram registrados vestígios de diversas espécies da fauna silvestre, incluindo animais ameaçados de extinção, como o tamanduá-bandeira, o lobo-guará e a raposinha-do-campo.

Os dados coletados serviram de base para relatórios técnicos encaminhados aos órgãos responsáveis e contribuíram para fortalecer o debate sobre a necessidade de medidas permanentes de proteção da fauna no município.

Como resultado dessa mobilização, a Prefeitura de Botucatu, por meio da Secretaria Municipal do Meio Ambiente, contratou em 2026 estudos de monitoramento de fauna nas rodovias Alcides Soares e Odilon Cassetari. Os levantamentos deverão subsidiar futuras ações voltadas à implantação de passagens de fauna e outras medidas de mitigação nessas vias.

A biodiversidade também gera oportunidades

A riqueza natural da Cuesta Paulista ganhou reconhecimento estadual em 2026, quando a Secretaria de Turismo e Viagens do Estado de São Paulo incluiu oficialmente a região em seu Guia de Roteiros de Observação da Vida Silvestre.

A inclusão da Cuesta Paulista no guia reforça o potencial de Botucatu para o turismo de natureza, a observação de aves e mamíferos e outras atividades que movimentam a economia local de forma sustentável. Também destaca a necessidade de políticas públicas capazes de proteger a fauna silvestre, patrimônio natural que sustenta parte significativa desse potencial turístico. 

Esse reconhecimento é resultado de um esforço coletivo que reúne ciência, participação comunitária e poder público.

Passagens de fauna em Botucatu: um debate que continua

A discussão sobre passagens de fauna em Botucatu segue em andamento e tende a ganhar relevância nos próximos anos. Com o avanço dos estudos técnicos, o fortalecimento da participação social e o reconhecimento da região como destino de observação da vida silvestre, cresce também a necessidade de soluções capazes de reduzir atropelamentos, aumentar a segurança viária e garantir a conservação da fauna nativa da Cuesta Paulista. A implantação de passagens de fauna em Botucatu representa uma das estratégias mais importantes para conciliar crescimento econômico, turismo de natureza e proteção da biodiversidade. 

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