Crise climática: o lixo pode ser solução


Um dos grandes contribuintes para a crise climática é o lixo. Os resíduos estão tão presentes no nosso cotidiano que muitas vezes não conseguimos perceber o tamanho do problema. Hoje, os resíduos sólidos contribuem para a poluição das águas, para a liberação de gás metano na atmosfera e também causam a morte de milhares de animais silvestres.

É urgente que a gente encontre — e participe — das soluções para esses desafios, porque os efeitos da crise climática estão cada vez mais frequentes e intensos em nossas vidas. O preço dos alimentos aumenta, a água se torna mais escassa e doenças relacionadas à poluição afetam cada vez mais pessoas.

Debate sobre resíduos sólidos em Botucatu

Na quinta-feira, 14 de maio, às 19h, munícipes de Botucatu, representantes de diferentes organizações e integrantes do poder público se reuniram para discutir os desafios relacionados aos resíduos sólidos no município.

Na ocasião, a Cuesta Viva conduziu uma apresentação com dados e informações que trouxeram um panorama geral sobre a situação dos resíduos sólidos em Botucatu, os principais desafios e possíveis caminhos para solucioná-los.

O encontro fez parte da Câmara Técnica para revisão do Plano Diretor Participativo de Botucatu, uma iniciativa realizada pela ONG Nascentes com apoio do COMDEMA.

Um sistema que já demonstra sinais de alerta

Atualmente, Botucatu possui um Plano Municipal de Gestão Integrada de Resíduos Sólidos elaborado entre 2020 e 2021. Isso significa que parte dos dados disponíveis já está defasada, um dos pontos discutidos durante a reunião.

Ainda assim, o plano traz informações importantes e revela situações que exigem atenção para evitar o agravamento dos problemas relacionados aos resíduos sólidos no município.

Segundo o documento, Botucatu gera cerca de 100 toneladas de resíduos por dia. O número é alarmante quando lembramos que a cidade possui aproximadamente 150 mil habitantes.

Hoje, esses resíduos são destinados ao Aterro Sanitário de Botucatu, localizado na Rodovia Eduardo Zucari, km 2,5, em uma área cercada por plantações de eucalipto.

O problema é que, desde 2021, o aterro já vinha recebendo uma quantidade de resíduos superior à capacidade prevista em seu licenciamento ambiental pela CETESB.

De acordo com o licenciamento, o aterro teria capacidade para receber 94,5 toneladas por dia. Porém, segundo o próprio plano municipal, o local recebia cerca de 114 toneladas diárias de resíduos.

Além disso, na última avaliação do Índice de Qualidade de Resíduos (IQR) realizada pela CETESB, o aterro obteve nota 7,1 — considerada apenas adequada no limite mínimo — indicando uma situação operacional de atenção e caminhando para a saturação.

Vale lembrar que o aterro também recebe resíduos de municípios vizinhos, como Pardinho e Itatinga.

E esse definitivamente não é um cenário positivo. Construir novos aterros ou ampliar os existentes custa caro aos cofres públicos e, na prática, não resolve o problema dos resíduos sólidos: apenas adia e acumula seus impactos.

O lixo e a crise climática estão conectados

Quando resíduos orgânicos são acumulados em aterros sanitários, ocorre a liberação de gás metano, um dos principais gases responsáveis pelo aquecimento global.

O metano possui um potencial de aquecimento muito maior do que o dióxido de carbono, o famoso gás carbônico mais associado à crise climática.

Por isso, a Cuesta Viva apresentou como proposta a inclusão, no Plano Diretor, de instrumentos que auxiliem no aumento da vida útil do aterro sanitário. Do ponto de vista estratégico, esse é um dos primeiros passos para enfrentar os desafios relacionados aos resíduos sólidos na Cuesta Paulista.

Caso o aterro entre em saturação, o problema afetará diretamente três municípios da região: Botucatu, Pardinho e Itatinga, que hoje dependem desse sistema para a destinação adequada dos resíduos domésticos e urbanos.

Reciclagem e compostagem: caminhos possíveis

A principal solução para ampliar a vida útil do aterro sanitário é investir na reciclagem.

Felizmente, a reunião contou com representantes do Ciclo Limpo e da Associação Fênix, duas iniciativas que atuam diretamente com reciclagem no município de Botucatu.

A forma mais rápida de reduzir o volume de resíduos enviados ao aterro é fortalecer a coleta seletiva e ampliar a compostagem.

Segundo o Plano Municipal de Gestão Integrada de Resíduos Sólidos, quase 50% dos resíduos que chegam ao aterro são orgânicos. E essa é uma excelente notícia, porque resíduos orgânicos podem deixar de ser um problema ambiental para se tornar uma solução climática.

Ao serem compostados, restos de alimentos, folhas e podas deixam de gerar metano no aterro e passam a se transformar em adubo natural, que pode retornar para hortas, jardins e áreas de recuperação ambiental.

Em 2025, o Ciclo Limpo está reciclando, em média, uma tonelada de resíduos orgânicos por dia em Botucatu — e possui capacidade para ampliar significativamente esse volume. Isso demonstra que já existem iniciativas locais preparadas para contribuir com a solução de um dos desafios ambientais mais urgentes da região.

Além disso, é fundamental fortalecer iniciativas voltadas à reciclagem de plástico, papel, alumínio e vidro, materiais que, quando descartados incorretamente, causam sérios impactos ambientais e sociais.

Reduzir também é necessário

Reciclar é fundamental, mas reduzir a geração de resíduos também é um caminho indispensável.

Precisamos nos unir enquanto comunidade para construir soluções que incentivem a diminuição do consumo de materiais descartáveis, especialmente aqueles difíceis de reciclar ou altamente poluentes.

Um dos principais encaminhamentos da reunião foi justamente a proposta de criação de uma política pública municipal capaz de fortalecer essas iniciativas e ampliar o acesso a recursos para que mais pessoas possam trabalhar diretamente na solução desses desafios.

Como dissemos no início deste texto: hoje, o lixo é um problema. Mas ele pode, gradualmente, se tornar parte da solução.

Quando reciclamos resíduos orgânicos, por exemplo, evitamos emissões de metano, aumentamos a vida útil do aterro sanitário e ainda produzimos adubo para fortalecer o solo e as plantas.

Nós, da Cuesta Viva, acreditamos que preservar a natureza é garantir um futuro mais próspero para toda a Cuesta Paulista.

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