Clima Botucatu: clima mais quente
A gente vê em todo lugar gente falando sobre crise climática. Em alguns momentos, isso parece até um discurso distante, coisa de ambientalista ou de grandes centros urbanos. Mas será que essas mudanças realmente afetam quem vive no interior de São Paulo?
A resposta, cada vez mais, é sim. E não é só sensação térmica ou impressão pessoal: a ciência já consegue comprovar que o clima está mudando aqui na nossa região.
Entendendo a crise climática
A crise climática é o nome que damos ao conjunto de mudanças rápidas e intensas no clima do planeta, provocadas principalmente pelo aumento da concentração de gases de efeito estufa na atmosfera. Esses gases, emitidos em grande parte pela queima de combustíveis fósseis, pelo desmatamento e por modelos de produção intensivos, retêm mais calor do que o equilíbrio natural do planeta consegue suportar.
O principal desafio que temos daqui para frente é frear o aquecimento global. Pois, o aumento da temperatura média do planeta coloca em risco a vida como a gente conhece, intensificando eventos climáticos extremos, como ondas de calor, secas prolongadas, chuvas intensas e enchentes.
No estado de São Paulo, os impactos das mudanças climáticas já são visíveis — e custosos. Entre 2023 e 2024, o litoral paulista enfrentou chuvas extremas que provocaram deslizamentos, mortes e deixaram milhares de pessoas desalojadas, enquanto regiões do interior sofreram com longos períodos de estiagem, afetando a produção agrícola, o abastecimento de água e a biodiversidade. Para lidar com esses eventos extremos e seus efeitos, o governo estadual precisou investir cerca de R$ 1,6 bilhão apenas em 2024, em ações emergenciais e de mitigação, evidenciando que a crise climática, além de gerar enormes transtornos sociais e ambientais, também impõe um alto custo econômico à sociedade.
Clima Botucatu: mudança na classificação climática
Um estudo publicado em 2023, intitulado Atualização da Normal Climatológica e Classificação Climática de Köppen para o Município de Botucatu-SP, chamou atenção da comunidade científica e local ao demonstrar que o clima de Botucatu mudou oficialmente de classificação.
A pesquisa foi conduzida por José Rafael Franco, doutorando no Programa de Pós-graduação em Engenharia Agrícola da FCA, e analisou dados climáticos atualizados do município.
Historicamente, Botucatu era classificada como Cfa, um tipo de clima considerado mais ameno, com temperaturas moderadas e chuvas bem distribuídas ao longo do ano. Com a atualização dos dados, o município passou a ser classificado como Aw, conhecido como clima de savana tropical.
Traduzindo isso para o dia a dia: Botucatu está ficando mais quente. As temperaturas médias aumentaram ao longo dos anos e o frio deixou de ser tão intenso como no passado, embora o inverno continue sendo mais seco.
O próprio pesquisador explica que essa mudança está ligada, principalmente, ao aumento da temperatura no mês mais frio do ano. Em muitas regiões do interior paulista, essa média passou dos 18°C, um limite importante usado pela ciência para diferenciar climas mais amenos de climas tropicais.
A atualização constante das classificações climáticas é considerada uma demanda urgente, principalmente para compreender melhor as relações entre clima, produção agrícola, disponibilidade hídrica e planejamento territorial, em um contexto de mudanças climáticas aceleradas.
A temperatura média de Piracicaba, a apenas 81 km de Botucatu, subiu 0,9°C
O que está acontecendo com o clima Botucatu não é um caso isolado. Um estudo realizado por Alvares, Sentelhas e Dias (2022) identificou mudanças significativas no clima de Piracicaba, município localizado a apenas 81 km de distância.
Dados coletados na Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq/USP) mostram que, entre 1916 e 2016, a temperatura média anual em Piracicaba aumentou 0,9°C. Para se ter uma dimensão desse número, a temperatura média do ar entre 1917 e 1946 era de 21,4°C. Já no período de 1987 a 2016, essa média subiu para 22,3°C.
Esse aumento foi suficiente para alterar a classificação climática do município, que também passou de Cfa para Aw. Estudos sobre o clima no interior do estado de São Paulo e na América do Sul indicam uma forte tendência de tropicalização da região, associada ao aquecimento global.
Ou seja: o aumento da temperatura não é um cenário futuro distante. Ele já está acontecendo e já está reorganizando o clima do interior paulista.
E agora, o que fazer?
Estudos como esses são importantes justamente para provocar a reflexão: se o clima já está mudando, o que podemos fazer agora?
A ciência aponta caminhos claros. Proteger áreas florestadas, recuperar áreas degradadas e ampliar a cobertura vegetal são ações fundamentais para minimizar os efeitos do aumento da temperatura. Ecossistemas naturais bem conservados ajudam a regular o clima local, pois reduzem a temperatura do ar, aumentam a umidade, favorecem a infiltração da água no solo e diminuem a ocorrência de extremos climáticos.
Pesquisas em ecologia e climatologia mostram que áreas com vegetação nativa preservada funcionam como verdadeiros reguladores térmicos, criando microclimas mais estáveis e resilientes frente ao aquecimento global.
Viva a ciência na Cuesta Paulista!
Ter universidades públicas, como a Unesp, atuando no território da Cuesta Paulista é uma grande vantagem. Além de formar profissionais altamente capacitados, a universidade produz conhecimento científico que beneficia toda a sociedade.
Informações como as trazidas por esses estudos são essenciais para apoiar a tomada de decisão do poder público, dos produtores rurais, de instituições privadas e do terceiro setor. Se sabemos que o clima já está ficando mais quente na Cuesta, podemos direcionar recursos e políticas públicas para iniciativas que contribuam para a regulação climática e a proteção da biodiversidade.
Os impactos vão muito além do meio ambiente. Um clima mais quente influencia desde o aumento da venda de sorvetes em meses tradicionalmente frios até mudanças no plantio, na colheita e na disponibilidade dos alimentos que chegam à nossa mesa — e daqueles que são exportados.
Conhecimento desenvolvido na universidade pública é de todos. Valorizar a ciência é também uma forma de cuidar do nosso território e de conservar a biodiversidade.