Um estudo inédito sobre as borboletas de Botucatu ganha forma na ciência e na arte. A exposição “Borboletas de Botucatu – Inventário como Gesto de Resistência” está em cartaz no Fórum das Artes, reunindo registros fotográficos produzidos durante a pesquisa das biólogas Laura Mazzutti Bertaglia e Alessa da Silva Almeida.
A mostra teve início em 08 de março e segue até 03 de maio, com entrada gratuita e classificação livre — um convite aberto para que a população se conecte com a biodiversidade local.
Este projeto marca um momento histórico: trata-se do primeiro levantamento científico das borboletas realizado na unidade de conservação do Parque Natural Municipal Cachoeira da Marta. A partir dele, o território passa a contar com um registro sistematizado sobre sua lepidopterofauna.
Por que estudar as borboletas de Botucatu?
Em uma região rica em biodiversidade — com mamíferos, aves, anfíbios e répteis — por que escolher as borboletas?
A resposta está na sua sensibilidade. Os lepidópteros são organismos ectotérmicos, ou seja, dependem diretamente das condições ambientais para regular sua temperatura. Isso faz com que respondam rapidamente a alterações no habitat.
Além disso, são considerados excelentes bioindicadores de qualidade ambiental. Sua diversidade, sensibilidade a fatores como clima, luminosidade e umidade, e a dependência de plantas hospedeiras tornam sua presença (ou ausência) um sinal claro das mudanças na vegetação e no equilíbrio ecológico.
A escolha do local para o levantamento
O estudo foi realizado no Parque Natural Municipal Cachoeira da Marta, uma unidade de conservação com cerca de 21 hectares, localizada na zona rural de Botucatu.
A área está inserida em uma região de transição entre dois dos biomas importantes do Brasil: Mata Atlântica e Cerrado.Até então, não existia qualquer levantamento sobre borboletas no local — o que torna o estudo ainda mais relevante. O objetivo das pesquisadoras foi justamente preencher essa lacuna, contribuindo para o conhecimento da biodiversidade e oferecendo indicadores atuais sobre a qualidade ambiental da área.
Sobre as espécies registradas
O levantamento resultou em:
- 125 indivíduos
- 52 espécies
- 5 famílias
A família Nymphalidae apresentou maior diversidade, com 36 espécies registradas. Na sequência, aparecem:
- Pieridae (7 espécies)
- Hesperiidae (6 espécies)
- Papilionidae (3 espécies)
- Riodinidae (1 espécie)
A diversidade observada foi considerada de baixa a moderada, o que pode ser explicado por fatores como o período chuvoso, as altas temperaturas e o tempo de amostragem.
A importância das Unidades de Conservação
Os dados revelam o Parque Natural Municipal Cachoeira da Marta como um refúgio relevante para a fauna de borboletas da região.
Mesmo com extensão reduzida, a área sustenta uma diversidade significativa e apresenta grande potencial para o avanço de estudos sobre biodiversidade e ecologia em contextos semiurbanos.
Esse cenário reforça uma compreensão essencial: áreas protegidas desempenham um papel vital na manutenção da vida, especialmente em territórios que convivem com a expansão urbana.
Um estudo sobre fragmentação e consciência ambiental
A pesquisa nasce do interesse em compreender os impactos da fragmentação dos ambientes naturais.
O crescimento dos centros urbanos e das áreas de monocultura transforma paisagens e redefine as relações entre sociedade e natureza. Ao mesmo tempo, amplia-se a consciência sobre a necessidade de integrar crescimento e preservação.
Reconhecer que fazemos parte da natureza fortalece nossa responsabilidade com o equilíbrio dos ecossistemas. Água, ar, solo fértil e biodiversidade sustentam a vida — e estudos como este ampliam nossa capacidade de perceber, compreender e agir.
Indo além: ciência que se transforma em arte
A exposição no Fórum das Artes amplia o alcance da pesquisa ao criar uma ponte sensível entre ciência, arte e educação ambiental.
Ao visitar a mostra, o encantamento surge naturalmente diante da delicadeza das formas, cores e padrões das borboletas. Ao mesmo tempo, uma força silenciosa atravessa a experiência: a exposição convida à reflexão sobre o nosso papel na preservação da natureza.
As borboletas assumem um novo significado — tornam-se mensageiras do equilíbrio ambiental. Sua presença revela vitalidade; sua ausência desperta atenção e consciência.
A experiência também transforma o olhar sobre o território. Caminhar pelo parque ganha novos sentidos: sons, movimentos e detalhes passam a comunicar histórias antes despercebidas, como o estalo produzido pela chamada “borboleta estaladeira”, cujo macho produz esse som para atrair a fêmea.
O papel da educação pública e da ciência
O estudo contou com o apoio do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de São Paulo, uma instituição pública, gratuita e de excelência.
A presença de instituições públicas de ensino e pesquisa no território fortalece a produção de conhecimento e amplia o acesso da população à ciência.
Iniciativas como esta demonstram o valor da educação pública: pesquisas relevantes, conexão com o território e devolutivas acessíveis à sociedade — como a própria exposição.
Um convite à conexão com a Cuesta Viva
“Borboletas de Botucatu – Inventário como Gesto de Resistência” se apresenta como um convite à presença e à percepção.
Observar com atenção.
Valorizar a biodiversidade local.
Cuidar do que sustenta a vida.
A integração entre arte, ciência e território inspira novos caminhos e fortalece o compromisso coletivo com a conservação da Cuesta Paulista.